No século XIX, a consolidação do sistema capitalista na Europa iria fornecer os elementos que serviriam de base para o surgimento da sociologia como ciência particular, no início deste já referido século, o pensamento de Saint Simon (1760-1830), de G.W.E.Hegel (1770-1830) e David Ricardo(1772 -1823), entre outros, seria o elo de ligação necessário para que Auguste Comte (1798-1857) e Karl Marx (1818-1883) desenvolvessem suas ideias e teorias sobre a sociedade de maneira radicalmente diferentes e divergentes.

Auguste Comte desde cedo rompe com as tradições familiares, monarquista e católica, torna-se um republicano de ideias liberais e passa a desenvolver uma atividade política e literária que lhe permitirá elaborar uma proposta para resolver os problemas da sociedade da sua época. Toda a sua obra está permeada pelos acontecimentos da França pós-revolucionária. Defendendo sempre o espírito da revolução de 1789 e criticando a restauração da monarquia, Comte se preocupou fundamentalmente em como organizar a nova sociedade que estava em ebulição e em um caos total. Isso era a preocupação constante, já que a desordem e a anarquia imperavam em consequência da confusão de princípios (metafísicos e teológicos) que não mais se adequavam à sociedade industrial nascente e em expansão; com base nestas necessidades nasce então a Ciência da sociedade, também conhecida como Ciências Sociais, propondo uma reforma prática das instituições, partindo de uma análise de suas estruturas e processos e de uma reforma intelectual plena no homem.

AS DIVISÕES DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Para facilitar e sistematizar o estudo e as pesquisas tornou-se necessária uma divisão das Ciências Sociais em várias disciplinas, que atualmente estão assim distribuídas:

  1. Antropologia Cultural:

Ciência que estuda as semelhanças e as diferenças culturais existentes nos mais variados agrupamentos dos seres humanos; estuda também a origem e a história do homem, sua evolução e desenvolvimento, estrutura e funcionamento. A Antropologia Cultural estuda não somente as civilizações e povos primitivos, mas também as sociedades industriais, sempre visando os aspectos culturais e comportamentais que são características marcantes destas sociedades citadas.

  1. Economia:

Este ramo das Ciências Sociais está voltado para o estudo das atividades humanas no campo da organização dos recursos, em outras palavras é o estudo da produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços. É a economia que se preocupa com as atividades do homem sejam elas individuais ou coletivas, sempre visando às buscas pelos bens materiais e sua distribuição conforme as necessidades humanas.

  1. Política:

A política e normalmente chamada de “a arte de governar”, e enquanto ciência estuda a distribuição do poder nas sociedades humanas. Ela é responsável pela sistematização de todos os conhecimentos dos fenômenos políticos. Portanto a política analisa o governo e os governados. Podemos resumir isso afirmando que a política é a ciência que se refere tanto à teoria quanto à prática do governo.

  1. Direito:

O Direito como ciência é voltado para o estudo das normas que regulam o comportamento social, estabelecendo direitos e obrigações entre as partes, através de sistemas legislativos característicos da sociedade. O direito é um controle social, que, através da aplicação sistemática da força da sociedade politicamente organizada, exerce coerção efetiva sobre os indivíduos.

  1. Psicologia Social:

Esta área das Ciências Sociais é voltada para o estudo da motivação e do comportamento do indivíduo, elementos estes que são determinados pela sociedade em que se está inserido. Poderíamos resumir como sendo o conceito central da Psicologia Social, como sendo o estudo da personalidade moldada pela cultura e pela sociedade.

  1. Sociologia:

É voltada para o estudo científico das relações sociais e as formas de associação humana, e na sua área de pesquisa estão inseridos os estudos acerca dos grupos sociais, dos fatos sociais, da divisão da sociedade em camadas, da mobilidade social, dos processos de cooperação, competição, conflitos sociais etc.

AS CIÊNCIAS SOCIAIS E O CRISTÃO

Certa vez, quando ministrava esta matéria em seminário de teologia, um dos alunos me fez o seguinte comentário: “está matéria é sem dúvida muito importante professor, mas em que ela é útil para nos estudantes de teologia?” E talvez seja também está a pergunta que o querido leitor esteja se fazendo, e a qual vamos tentar responder comentando a relação de cada uma destas ciências com o contexto cristão em que estamos inseridos.

O Cristão e a Antropologia Cultural: Conhecer o ser humano é de suma importância para o cristão, porque facilita a evangelização; trabalhamos para Deus muito melhor, quando o fazemos com conhecimento de causa. Conhecendo o homem, e o meio cultural em que está inserido, podemos condicionar a mensagem evangelística à sua realidade.

O Cristão e a Economia: Organização de recursos, eis uma das principais funções da economia. De grande valia para os servos do Senhor, principalmente para os que estão na liderança do corpo de Cristo e manuseiam o “dinheiro de Deus”, tendo noção da ciência econômica este trabalho de administração fica de sobremaneira facilitado.

O Cristão e a Política: Este talvez seja um dos relacionamentos mais criticados ou mal-entendidos, pois existe em nosso meio um preconceito extremo com a política; preconceito este motivado pela existência de maus políticos, descompromissados com o bem-estar da nação e preocupados apenas em legislar em causa própria. Mas, não podemos nos esquecer que embora o cristão seja filho de Deus e, por conseguinte, cidadão nos céus, ele continua vivendo no mundo, até porque é necessário que esteja no mundo para ser embaixador do reino de Deus na terra. Assim, necessariamente, o cristão deve participar do dia a dia da vida da sociedade onde vive e este cotidiano envolve a atividade política que, está presente em todas as ações sociais- Jesus, embora fosse o Filho de Deus, não deixou de cumprir com seus deveres cívicos, seja como israelita, seja como indivíduo sob o jugo romano. No episódio do pagamento do tributo que cobraram de Jesus mediante questionamento a Pedro, isto ficou bem claro. Neste sentido, pois, todo cristão, como imitador de Cristo, deve também ser um cidadão exemplar, cumprindo as leis, logicamente as que não ofenderem a cidadania celestial e, entre as leis, está a que impõe como dever o de participar da escolha dos governantes: o direito e dever do voto. Se os servos de Deus se omitirem de votar e escolher os governantes, tal gesto será um meio fazer sempre triunfar pessoas descompromissadas com a Palavra de Deus, serão sempre pessoas que não farão a mínima questão de apresentarem programas e planos de governo que tenham pontos e premissas concordantes com a doutrina da Palavra de Deus, pois, diante da omissão dos cristãos, tal observância não se fará necessária. A consequência será, sempre, a subida ao poder de governantes que farão o que não é agradável a Deus.

O cristão, enquanto eleitor, deve analisar as propostas e as condutas dos candidatos, de modo a verificar se são pessoas comprometidas com a Palavra de Deus ou que demonstram ter respeito e observância por preceitos bíblicos, se tratar de um candidato que seja servo de Deus, esta análise deve ser ainda mais cuidadosa, devendo ser destacada a vida espiritual do candidato e o propósito de Deus na sua vida. O cristão, enquanto eleitor, deve ainda verificar os candidatos à reeleição e observar o que fizeram pela população, como se comportaram diante das grandes questões e temas que surgiram durante o seu mandato e se suas atitudes e decisões estão de acordo com a Palavra de Deus; devendo também repelir e rechaçar veementemente aqueles que buscam comprar seu voto, oferecendo vantagens e presentes, inclusive “para a obra do Senhor”. Deus não precisa de barganhas de políticos e a Palavra de Deus é dura contra aqueles que se deixam subornar e vender. Como é triste verificar que muitos crentes e, porque não dizer, ministros, apoiam este ou aquele candidato, em troca de favores e vantagens pessoais ou para “a obra de Deus”.

O cristão, como qualquer cidadão, pode, também, ser candidato a cargo eletivo, sendo até desejável, pois a Bíblia está repleta de exemplos de homens fiéis que foram usados por Deus exatamente no governo de povos e nações, como é o caso de Davi, de Daniel (o único estadista da história humana a ter servido a três impérios distintos), mas a igreja, enquanto instituição humana (igreja local) e divina (igreja, povo de Deus) é incompatível com a atividade político-partidária. A igreja prega a todos os homens, quer ser aceita por todos os homens, quer que todos os homens cheguem ao conhecimento da verdade. Ora, nesta sua função totalizante, não pode jamais a igreja se envolver na atividade político-partidária, que é uma atividade de parte, como diz o próprio nome “partido”, que defende o interesse de alguns, que busca prevalecer sobre outros, pessoas que vieram a confundir as duas atividades, tiveram más consequências em suas vidas, como se podem observar nas vidas de Samuel, Saul e Uzias.

O Cristão e o Direito: Nós sabemos que a igreja é uma organização celestial, e que Deus tem um cuidado especial por ela; mas, a igreja também é uma organização civil e, como tal está sujeita às leis que regem a nação, e por esta causa é que o direito se torna importante para o cristão, como igreja de Deus. Também como cidadão o filho de Deus precisa se se submeter à lei e se valer dela para garantir os seus direitos.

O Cristão e a Psicologia Social: É importante para o cristão ter uma noção desta ciência, para que através dela possa conhecer um pouco mais a fundo as pessoas com quem convive, o meio social que determinou a formação comportamental da formação dos indivíduos que estão a nossa volta; assim poderemos desenvolver melhor o amor ao próximo e teremos um possível trabalho de formação de maturidade cristã aperfeiçoado pelo conhecimento de causa.

O Cristão e a Sociologia: Esta é a disciplina de maior enfoque neste tratado, e por esta causa não nos deteremos aqui tratando acerca dela; por certo o amigo leitor perceberá a sua importância como ciência para o cristão, e suas mais diversas aplicações ao final do estudo desta matéria.

A matéria Fundamentos Sociológicos do Bacharel em Teologia EAD pelo MEC do SETEFI aborda a divisão das ciências sociais, fatos e contatos sociais, comunidade, tipos de sociedades, cultura e instituições sociais, dentre outros assuntos.


Sadrac Pereira

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.